
Vejo folhas amarrotadas de um calendário, tombadas sobre o tampo de uma mesa como as que lá fora já forram o chão que há muito não pisas.
Vejo dias desperdiçados com o vento de feição e o veleiro no meu coração em doca seca, apontado como uma seta para o horizonte sem fim, à espera de um corte no cordão umbilical que o prende a uma âncora imaginária que agora parece feita de papel.
Como o das folhas amarrotadas, numa mesa pousadas para marcarem a passagem do tempo num tiquetaque sem quartel. À espera de um sinal que tarda a chegar e eu preciso muito de embarcar na próxima maré favorável.
Esta sensação desagradável de olhar para o calendário prestes a esgotar as munições, como a árvore despida lá fora, recorda-me que se aproxima a hora de dar início a um recomeço como todos os que definimos, arrogantes, redundantes, sem podermos sequer ter como adquirida uma continuação.
E eu alimento uma ilusão (des)necessária, escondida nos bolsos de uma história que tento alimentar à socapa da realidade que me atraca ao teu porto de abrigo que, na verdade, não passa de um puro castigo.
O preço da minha indesculpável acomodação.